1 de outubro de 2018

Pesadelo no comboio

Após uma bela semana em Bristol, onde tudo correu admiravelmente bem, pelo menos para mim, já borbulhava em mim o receio de que algo não corresse bem no regresso, dado o meu historial com viagens (digo pelo menos para mim, pois revi-me num dos participantes da formação, que conseguiu chegar atrasado dois dias consecutivos - um porque havia uma vaca na linha do comboio, e aparentemente ainda foram durante algum tempo, lentamente atrás dela; e no dia seguinte, porque a ligação onde tinha de trocar de comboio estava suspensa por avaria de uma das máquinas - ao que eu pensei - ainda bem que fiquei no hotel do evento, senão esta poderia perfeitamente ser eu).

Voltando ao meu dia (sexta-feira dia 28/09)... a formação na qual eu estive, onde fazia parte da organização ao mesmo tempo que tinha oportunidade de assistir e aprender imenso, acabou pelas 15 horas. Neste último dia eu estava por minha conta, tendo ficado de arrumar tudo, recolher questionários e levar tudo dentro de uma grande mala que teria de entregar numa das estações a caminho de Bangor. Cheguei à estação de Temple Meads em Bristol, que é lindíssima, e fui calmamente e com tempo para a plataforma indicada, sabendo que faria apenas algumas estações até Newport onde tinha de trocar de Comboio. Às 17 horas estava sentada na plataforma 3, e aguardei serenamente, enquanto lia o meu livro de bolso, as 17h30, hora da ligação que me levaria directa a Bangor, sem mais necessidade de sair do Comboio. No painel luminoso dizia o destino correcto e a hora, o comboio chegou à hora certa, eu entrei nele. Quando entrei perguntei se não havia letras nas carruagens (aqui geralmente existe a carruagem A, B, C e por aí em diante), ao que o senhor me respondeu que não, para me sentar em qualquer sítio e assim fiz. Estranhei o meu bilhete electrónico ter essa informação e não corresponder, mas já não era a primeira vez pois o sistema de comboios aqui e de atribuição de lugares é muito estranho, fica para outro post (mas em suma é muito frequente não haver lugares marcados). Deixei-me levar tranquilamente, depois de ter mostrado o meu bilhete e nada e ter sido dito, eis que um senhor me toca no braço para dizer que aquela era a estação terminal, estava em Cheltenham Spa, muito longe de onde deveria estar. Quando expliquei ao senhor o que se tinha passado ele olhou para mim com um ar compassivo e disse que eu tinha razão, e que deveriam ter sinalizado melhor pois o meu comboio devia ter chegado pouco depois daquele, e indicou-me com quem falar, para me explicar a melhor forma de voltar a um trajecto que fosse dar ao meu destino. Irritada e com as pressas a sair do comboio, prendi os meu fones e lá ficou um dos auriculares pendurado no banco do comboio, para ajudar ao meu estado de humor.

Nota (principalmente para pessoal de psicologia) - foi engraçado isto ter acontecido depois de um treino de competências, pois tive a oportunidade de pôr em prática a tolerância de distress, o mindfulness e a aceitação radical, de que não havia nada a ser feito, e que tinha de aceitar e gerir o que estava a sentir.

Fui ter com o dito senhor que me deu um papel detalhado que explicava o trajecto a fazer, e implicava fazer duas trocas de comboio, para me pôr a caminho de Bangor. Importa dizer que eu estava com uma mochila às costas, uma mala de mão, e uma mala gigante de 20 kg que supostamente só teria de entregar numa estação. Depressa percebi que não ia passar nessa estação, e que teria de levar a mala comigo (depois de falar com a pessoa a quem a ia entregar). Segui a passo apressado para a plataforma que me indicaram e fui para Birmingham onde teria de fazer a primeira troca de comboio... se ao menos fosse tão simples... Eis que vejo a bela mensagem - the train is delayed. Atraso do comboio porque alguém estava doente e teve que se parar o comboio para prestar assistência à pessoa, claro que sim, que melhor timing? Veio com 20 minutos de atraso, e já sabia que não ia conseguir apanhar a ligação em Stafford como era suposto. Respirei fundo várias vezes, procurei nova ligação, encontrei uma que implicava fazer mais uma troca e demorava mais 40 minutos, era a única hipótese. Cheguei a Stafford e apanhei essa outra ligação, eram por esta altura 21h30, andei uma estação e troquei finalmente de comboio, depois de arrastar pesadamente as malas comigo. Percebi por esta altura que a mala grande estava tão difícil de arrastar, porque tinha perdido uma roda... sim, mais esta.
Entrei no comboio final eram cerca de 22h e cheguei à minha estação de destino às 23h40... o elevador da estação estava fora de serviço e tive de carregar as malas escada acima e escada abaixo, penso que só o desânimo me arrastava por estas horas. Apanhei um táxi para casa, e assim terminou a minha fatídica viagem, 8 horas depois, com menos uma roda e uns fones, mas um livro de que gostei imenso, acabado de ler.

Vida difícil.

Jules