Já há algum tempo que não escrevia por aqui. Os dias vão passando e as peripécias seguem-se, mas quando chegam as pausas em que poderia escrevê-las já as esqueci.
Mas, como as férias proporcionaram alguns momentos peculiares que acho que não esquecerei tão depressa, resolvi partilhar aqui, porque no meio dos meus azares, sinto-me uma sortuda.
Decidi pegar no meu carrito e num grande amigo e lançarmo-nos pelo Alentejo fora. Começámos a nossa viagem saindo de Castelo Branco para Castelo de Vide, fazendo um desvio por Marvão, e acabando num recanto maravilhoso (de onde partilho a foto) onde pudemos relaxar na piscina ao ar livre, descansámos e acordámos para um pequeno almoço recheado de fruta fresca, bom pão e queijo como manda a cozinha portuguesa e outros mimos que nos aconchegaram a manhã. Seguimos para Elvas, onde comemos uma açorda com frango frito que estava de comer e chorar por mais. Tudo correu bem até então, e de Elvas seguimos para Badajoz (como reza a música - Oh Elvas oh Elvas, Badajoz à vista), onde vimos a Alcáçova do Castelo e jardim circundante e depois de um desvio involuntário (que é como quem diz, depois de termos perdido um bocadinho o rumo, eu especialmente) lá voltámos ao carro para nos pormos a caminho de Mérida, onde íamos passar a noite.
Tudo correu tão bem e tão pacificamente até este momento, que ambos estávamos surpreendidos e satisfeitos com isso! Chegámos ao local que tínhamos reservado e demos com ele facilmente, pousámos as nossas coisas e depois de jantar saímos para beber um copo. Agora é que começa a primeira peripécia. Regressámos tarde e tentámos fazer pouco barulho porque haviam mais pessoas na casa onde ficámos, e tínhamos deixado uma janela aberta para refrescar o quarto. Preparámo-nos para ir dormir, e o meu amigo tirou as lentes de contacto e encaminhou-se para a casa de banho e de repente eu reparei que havia uma centopeia no chão e avisei-o disso, como ele não conseguia ver ficou um bocado alarmado e gerámos todo um alarido até eu meter um copo em cima do bicho para não a matar. Ele alertou-me para o facto da centopeia ser venenosa e que se mexer muito rápido, mas aquela coitada estava a patinar no azulejo e eu só me conseguia era rir. Lá meti um papel por baixo do copo para a atirar pela janela fora, e como me estava a rir ia-me caindo em cima (caiu no parapeito e eu fechei a janela de repente). A boa notícia é que ninguém foi picado, e claro que fizemos um check ao quarto a seguir a isto para não acabarmos a dormir com centenas de patas.
Depois deste alarido, pensámos - o pior já passou - e no seguinte dia de manhã, lá fomos explorar Mérida que é lindíssima e aconselhamos vivamente. Ao fim da tarde, pegámos no carro para ir embora, e o meu amigo reparou que um pneu do carro estava um pouco em baixo e fomos enchê-lo para nos pormos a caminho, em direcção a Cáceres, com intenção de lá atestar o depósito pois foi na altura da crise dos combustíveis deste lado da Península. Quando lá chegámos percebemos que o pneu já tinha perdido mais algum ar, e eu percebi que o conseguia ouvir a vazar... lá percebi que era a válvula onde se enchia o pneu que estava ligeiramente gretada e que ouvia a deitar ar, e se colocasse o meu dedo parava (tudo isto aconteceu nas bombas de gasolina ao lado daquela máquina com ar e água). Fui à loja das bombas ver se tinham daquela fita cola prateada super potente especialmente para carros, e tinham, e com algum engenho lá conseguimos vedar a fuga, e entrámos para o carro para entrar e por-mo-nos a caminho, todos contentes porque tínhamos safado a situação. Assim que tentei ligar o carro, a bateria estava morta, só porque deixei o rádio ligado e possivelmente o AC. Lá pedi ajuda ao senhor das bombas que entrou no meu carro e conseguiu pô-lo a pegar de marcha atrás connosco a empurrar.
Finalmente lá arrancámos, e pensámos - agora é que é, está tudo resolvido, e aí vamos nós! Mas depois de alguns kilómetros comecei a sentir instabilidade e parei o carro (sem o desligar porque ainda não tinha dado tempo para a bateria carregar) e percebemos que a fita adesiva não tinha aguentado e o pneu estava na mesma, a perder ar e já meio vazio, meio cheio... sem saber muito bem o que fazer, e com receio de tentar mudar o pneu no meio do nada. Voltámos à estrada, mais devagar, a tentar pelo menos chegar a alguma povoação, e após alguns kilómetros a pensar se devíamos continuar ou parar, o meu amigo gritou - mecânico, acho que é ali uma garagem - e eu lá fiz inversão de marcha, e fomos até lá, onde encontrámos dois senhores sentados à porta de uma garagem, que parecia ser de carros.
Lá expliquei o que se passava e o senhor ofereceu-se para nos ajudar a mudar o pneu. Quando viu o meu pneu suplente mudou de ideias, e disse que não chegava a Portugal com ele, e disse que ia ver se conseguia trocar a válvula e se isso resolvia o problema. Assim fez, o pneu estava impecável e voltou ao seu lugar, e quando lhe quiz pagar não quiz nada, disse apenas para nos sentarmos a beber uma cola fresca e uma batatas fritas, antes de nos fazermos ao caminho. Nós aceitámos claro e brindámos à nossa sorte, dissemos que ele era um espectáculo claro, o nosso milagre, e ele disse que tinha sido mesmo uma sorte porque em qualquer outro dia ele não estaria ali àquela hora, mas naquele dia, estavam a preparar uma patuscada, e era festa da aldeia.
Bebemos a cola fresca, até eu que nem gosto de coca-cola mas que me soube bem, e a viagem de volta foi espetacular, porque a sensação de alívio e de gratidão por alguém nos ajudar assim, de forma completamente desinteressada e boa, nos fez voar para casa, com um sorriso na cara, maior do que trazíamos. À saída do local, tirámos foto ao sítio, foi em Navas Del Madroño, e ficou a certeza de que voltarei àquele sítio para agradecer ao senhor, com algumas preciosidades gastronómicas da minha região.
E assim foram estes dias pelo Alentejo e vizinha Espanha, seguidos de mais alguns dias de descanso onde as peripécias já são mais pequenas para lembrar, mas sei que ainda fiz umas nódoas negras, parti uma unha, queimei um dedo (muito ao de leve) e queimei o braço com o secador (em forma de cruzes, até ficou engraçado), mas nada de muito significativo a relatar.
Vou ver se vou escrevendo com mais frequência porque a minha vida é uma animação, e talvez vos faça perceber ou que a vossa não corre assim tão mal, ou se corre, não são os únicos ou as únicas :D
Jules


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